Queimadas são consequência da redução drástica no controle
Queimadas são consequência da redução drástica no controle (Foto: Reprodução)

O biólogo norte-americano Thomas Lovejoy passou mais de 50 anos da sua vida estudando a Amazônia e hoje teme que a região possa estar chegando perto do chamado “turning point” (ponto de inflexão), do qual talvez não consiga mais se recuperar nem manter seus serviços ecossistêmicos.

Considerado um dos pais da biodiversidade – por ter cunhado a expressão “diversidade biológica” nos anos 1980, é um pioneiro em biologia da conservação e começou a pesquisar a Amazônia em 1965, quando fazia seu doutorado.

Testemunha das muitas transformações que a região sofreu neste período, ele alerta que a situação atual é a “antítese da sustentabilidade”.

Ele deu entrevista ao Estado num momento em que o número de focos de incêndio em todo o País bate recorde dos últimos sete anos.

Até esta quarta-feira, 21, foram 75.336 focos e, todo o Brasil, alta de 84% em relação ao mesmo período do ano passado.

Os oito primeiros meses de 2016, ano mais seco, e com mais focos até então, tinha registrado 69.310 focos. Confira abaixo a entrevista.

A Amazônia sempre sofreu com queimadas no período seco, mas neste ano estamos batendo o recorde de focos de incêndio dos últimos sete anos. Há motivo de preocupação?

As queimadas puderam ser vistas do espaço. Considerando a escala de fogo / fumaça, é uma das duas únicas ocasiões em que houve incêndios como estes.

A outra vez foi em 1987, um ano do El Niño e muito seco, quando os incêndios produziram uma nuvem de fumaça tão grande quanto o Brasil pairando sobre a América do Sul.

Em termos de desmatamento, certamente a metade da primeira década deste século foi bastante ruim, mas depois o desmatamento foi drasticamente reduzido por ações e políticas do governo (entre 2005 e 2012 a taxa de desmatamento da Amazônia caiu cerca de 80%).

Qual é a diferença do momento atual?

Desta vez, trata-se de uma consequência da redução drástica no comando e controle combinada com o incentivo dos líderes do governo.

De que maneira isso é um risco para o futuro da Amazônia?

O problema é que a Amazônia não pode continuar absorvendo isso sem ultrapassar um ponto de inflexão em que a combinação de desmatamento extensivo, abuso de fogo e mudança climática prejudique o ciclo hidrológico.

Com isso, o sul e o leste da região, além de uma parte da Amazônia central, podem se convertem em savana, se não em caatinga. As recentes secas sem precedentes, de 2005, 2010 e 2015/16 são as primeiras oscilações desse ponto de inflexão.

Qual é o impacto dessa mudança?

Além do que isso representa em termos de perda de biodiversidade e liberação de carbono e todo o significado que isso tem em termos de bem-estar para aqueles que vivem na Amazônia, isso também significa menos chuvas e temperaturas mais altas para a agricultura no Brasil central. É a antítese da sustentabilidade.

A fumaça que chegou a São Paulo deve ser vista como uma mensagem de que é hora de parar as práticas destrutivas atuais e retornar ao manejo sustentável e a proteção da grande floresta.

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Por: Giovana Girardi/Estadão

 

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