Chego em casa e vou logo tirando a máscara, tomo banho, passo álcool em gel. Está sendo muito difícil para mim.

Alunos com medo e a divergência entre profissionais de educação marcaram o retorno das aulas na capital do Amazonas. Passado o pico da contaminação e das mortes por Covid-19 em Manaus, a cidade foi a primeira do país a reabrir as escolas.

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A retomada do ano letivo no sistema público ocorreu na última segunda-feira, depois de o governo do Estado obter uma decisão judicial contrária ao que defende o Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Sinteam), que pedia mais um mês para o retorno das aulas.

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Inicialmente, a Secretaria de Estado de Educação do Amazonas (Seduc) decidiu pelo retorno apenas em Manaus.

Interior

No interior, a retomada ainda não tem data para acontecer. Com a medida, ao menos 110 mil alunos de escolas públicas passam a frequentar as escolas neste mês. Na rede privada, as aulas começaram há duas semanas, com 60 mil alunos.

O regresso foi autorizado por decreto do governo estadual que permitiu a abertura das escolas a partir da última semana de julho e primeira semana de agosto.

A decisão, segundo o governador Wilson Lima (PSC), foi tomada com base em pesquisas que apontaram a queda da infecção pelo coronavírus no estado e, também, respaldada em recomendações de órgãos nacionais e internacionais.

O Plano de Retorno das Aulas Presenciais adotou um sistema gradual e híbrido, com a distribuição de máscaras aos alunos e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) aos funcionários das escolas, além de instalação de totens para álcool em gel.

O documento, com 67 páginas, foi produzido com base em recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Conselho Nacional de Educação (CNE).

Pelo planejamento, ficou decidido que os alunos do ensino médio e da modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA) voltariam antes do fundamental: este último grupo deve retornar no dia 24.

Retorno gradual

As turmas de 40 alunos por sala, segundo a Seduc — foram divididas em dois blocos, de 20 cada um, e os blocos se revezam durante a semana. Um deles assiste às aulas às segundas e quartas, e outro, às terças e quintas.

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Às sextas-feiras ficam reservadas ao planejamento dos professores. Quando os estudantes não estão em sala, devem continuar acompanhando o conteúdo em domicílio, por meio de um canal de TV aberta e pelo YouTube.

O plano da Seduc estabelece ainda um sistema específico para a distribuição de merenda aos alunos. Entre as diretrizes, manter o distanciamento de 1,5 m entre as pessoas ou utilizar barreira física, como protetor facial e divisória.

Um aplicativo foi disponibilizado para que os servidores registrem casos suspeitos e confirmados de Covid-19.

Professores

A contaminação dentro do ambiente escolar é a maior preocupação da professora de português Maria Enides de Souza Pereira, de 49 anos, que atua em uma escola estadual na zona norte de Manaus.

O mais difícil para nós é voltar para a sala de aula e ter um aluno infectado ou alguém da família. Para mim o ideal ainda é o acompanhamento à distância, ao menos por mais um tempo.

Já para a professora de matemática da rede estadual Benedita da Silva Freitas, de 53 anos, o momento é de retomar as aulas presenciais e dar atenção à defasagem de aprendizado causada pelo fechamento das escolas.

Estamos em período de revisão, mas sobretudo conversando com os alunos, principalmente porque minha disciplina é da área de exatas.

Uma coisa é assistir a um conteúdo, outra é estar em sala de aula. Relatos de alunos expõem que a aprendizagem foi fragilizada, muitos têm tido dúvidas sobre o conteúdo.

Estudante do Instituto de Educação do Amazonas (IEA), no Centro de Manaus, Marco Aurélio Souza, de 16 anos, diz que nunca apresentou tanta dificuldade para aprender quanto agora, especialmente pelo uso obrigatório de máscara em sala de aula.

A gente não consegue respirar direito, o professor não entende o que a gente fala.

Fonte: O Globo