No cinema, existe uma máxima de que a sequência dificilmente superará o original. No mundo dos games, entretanto, costuma ser o inverso e muitas vezes continuações servem para aparar as arestas deixadas pelo primeiro, melhorar no que ficou faltando e tornar ainda mais interessante aquilo que funcionou. E quem acompanha sabe, a Ubisoft é mestre nisso.

Basta olhar algumas das obras recentes da companhia, como Far Cry 5, que levou à potências incríveis um sistema criado há seis anos, no terceiro game da série, ou Watch Dogs 2, que entregou a liberdade e a modernidade que ficaram faltando na travada primeira versão do jogo. Com The Crew 2, a expectativa era a mesma. Mas chega a soar estranho que, neste caso, a companhia decidiu seguir o caminho inverso.

Pelo menos foi essa a sensação deixada pela versão Beta do jogo, liberada pela companhia no último final de semana. O game chega em 29 de junho ao PC, Xbox One e PlayStation 4, com a ocasião servindo para estressar servidores e garantir que a estrutura de um jogo intrinsicamente online funcionasse bem no lançamento. Nesse quesito, tudo parece ter dado certo. Em outros aspectos, porém, a coisa não foi tão estrelada assim.

Jogos de corrida de mundo aberto existem aos montes e a franquia Need for Speed, um dos bastiões do gênero, há anos aposta nessa abordagem para seus games. A escala, então, foi o diferencial de The Crew, com a Ubisoft prometendo entregar uma reprodução bastante fiel dos Estados Unidos e o maior mundo aberto que já desenvolveu. Foi o aspecto que mais agradou aos jogadores no primeiro jogo, mas que, neste segundo, parece negligenciado.

Não entenda mal; o universo de The Crew 2 é gigantesco e, em nossos testes, soou até maior do que o anterior — enquanto no primeiro uma viagem de costa a costa levava cerca de duas horas, agora, ela pode levar quase três. O problema é que existem poucos biscoitos disponíveis para encher um pote tão grande.

A sensação de escala termina quando se fecha o mapa do mundo. As cidades estão menores e, mais do que isso, aparecem em menor quantidade. As principais estão lá, como Nova York, Chicago, São Francisco, Washington, Los Angeles e Las Vegas, todas com seus marcos, pontos turísticos e estilos próprios plenamente reconhecíveis — a Cidade do Pecado, inclusive, é a mais bonita delas e também um dos cenários mais belos de The Crew 2.

No caminho entre elas, entretanto, há um grande vazio. Onde antes existiam cidadelas, pequenos pontos turísticos e uma verdadeira sensação de progressão, como se o jogador estivesse, efetivamente, viajando, o que fica agora é um sentimento de mesmice. Esqueça passar por municípios menores no caminho, uma vez que o mapa é composto apenas de estradas e grandes metrópoles, com uma exceção ou outra no meio do caminho.

Um grande exemplo disso é o meio-oeste americano, completamente vazio, pelo menos na Beta de The Crew 2. Essa condicional aparece pelo simples fato de não existir nenhuma cidade na região central dos Estados Unidos, algo que soa estranho. É muito espaço e pouca coisa para ver — as missões do game, claro, nos levarão a competir nas estradas sinuosas e sem asfalto do Grand Canyon, mas a ausência de municípios chama a atenção de maneira extremamente negativa.

Uma viagem de costa a costa, então, de aspecto mais interessante do game inicial, se torna uma experiência chata em The Crew 2. Há pouco para ver e a sensação de tédio se torna ainda mais flagrante quando nem mesmo existe tráfego ou transeuntes pelos locais. O jogo tem um sistema esquisito de geração de tráfego, que alterna momentos de intensidade com vazios completos, em que as cidades mais parecem saídas do começo de um filme apocalíptico.

Outro aspecto aguardado para a sequência, porém, não é entregue aqui. Os gráficos do primeiro jogo da série já não eram dos mais impressionantes e chega a ser triste notar que, em The Crew 2, eles não melhoraram muito. Existem aspectos superiores, é claro, principalmente no que tocam os detalhes, mas quando se observa de longe, às vezes parece que a sequência é até pior que o original.

Os ciclos de dia e noite, por exemplo, não são mais tão impressionantes devido a um sistema de iluminação que não é mais tão detalhado, e o mesmo vale para a chuva ou o nevoeiro. Os objetos que surgem no cenário, bem como aqueles que não carregam direito, aparecem com frequência maior. E porque diabos os retrovisores se parecem, o tempo inteiro, com um box de chuveiro embaçado pelo calor?

Tirando com uma mão e dando com a outra

O que parece ser uma falta de atenção a um dos aspectos que mais chamou a atenção no primeiro The Crew, entretanto, parece ser fruto em um foco apurado no quesito que ficou faltando no anterior. Enquanto o jogo original tinha a viagem como mote, na sequência é a competição quem toma conta.

O jogador é colocado na pele de um piloto aspirante, que precisa galgar fama (calculada em forma de seguidores) cumprindo desafios e não apenas vencendo corridas, mas também fazendo bonito nas provas. E, agora, isso não se resume apenas aos carros, com The Crew 2 trazendo motos, aviões e barcos ao conjunto, variando a jogabilidade sem perder a simplicidade no controle.

Mais do que seu antecessor, então, The Crew 2 é um título arcade em estado puro. Não espere um sistema de colisão apurado nem carros que se comportem como suas contrapartes reais, mas sim veículos de luxo capazes de resistirem a grandes saltos ou aviões incrivelmente ágeis e simples de se pilotar, capazes das acrobacias mais loucas sem perderem a estabilidade.

O direcionamento da Ubisoft é a diversão. E ela funciona muito bem, obrigado. O aspecto arcade dado a The Crew 2 gera até mesmo algumas situações inusitadas, como pilotar uma Red Bull, saída diretamente da Fórmula 1, em um circuito oval, com direito a buzina e nitro; ou lançar-se de uma das montanhas do Grand Canyon não apenas chegando ao solo inteiro, mas também com a capacidade de continuar na corrida — e ainda ganhando fãs por causa disso.

Vale a pena citar como destaque também as corridas aéreas, não apenas por elas nos lembrarem de clássicos como Diddy Kong Racing, mas também por entregarem a sensação de escala que, muitas vezes, falta quando estamos no solo. Os voos sobre grandes cidades, nos quais podemos observá-las completamente e enxergar ao longe e conferir os ciclos de dia e noite acontecendo, acabam sendo o aspecto mais interessante da sequência.

Quem está estreando agora na franquia, porém, deve curtir o resultado. Já em sua versão Beta, The Crew 2 mostra um ótimo foco na competição, algo básico em todo jogo de corrida, ao ponto de muitos jogadores o compararem a um dos grandes bastiões atuais da velocidade arcade, o grande Forza Horizon.

Entretanto, colocar os dois lado a lado é perceber o quanto a Ubisoft ainda precisa melhorar. E o mesmo vale quando se compara o primeiro e o segundo game — muito do que faltou no primeiro aparece aqui, mas o aspecto que faz com que o original seja lembrado por quem jogou não aparece mais com a força de antes, tornando The Crew 2 bem menos interessante do que deveria ser.

Como citamos no começo deste texto, porém, estamos falando de Ubisoft, uma empresa que demonstra aprender com os próprios erros. E por mais que não dê para esperar melhorias drásticas em um game que chega às lojas em algumas semanas, dá para ter esperança por uma sequência que, essa sim, una o que há de melhor nos dois jogos anteriores e resulte no The Crew que os fãs sempre quiseram ver.

Fonte: CanalTech

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