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quarta-feira, janeiro 23, 2019

Violência Doméstica: o papel da mídia mais atrapalha do que ajuda? E o seu?

“Atriz grava agressões do marido com câmeras escondidas dentro do quarto no Rio”, dizia a manchete da matéria que você leitor, provavelmente também assistiu ontem a noite. Não é como se fosse novidade, o Brasil, afinal, ocupa o 5º lugar entre os países mais violentos do mundo no que se refere à violência doméstica contra mulheres. O que deveria chocar mesmo é o descaso com que situações como essa são tratadas não só pelas autoridades, mas pela mídia.

Na noite deste domingo

Fantástico apresentou uma reportagem sobre a atriz Cristiane Machado, que participou de várias novelas da TV Globo. Descobrimos então que a atriz gravou em vídeo agressões que sofreu do marido, o empresário Sergio Schiller Thompson-Flores, em agosto, em sua casa no Rio. Em julho, todos nós conhecemos a história da advogada Tatiane Spitzner, de 29 anos, que morreu após ser jogada do quarto andar de um prédio pelo próprio marido, Luis Felipe Manvailer.
As histórias têm muito em comum, o que denuncia uma espécie de padrão em casos de violência doméstica. Mas vejamos além do óbvio, sim? Assim como no primeiro caso apresentado, esta pessoa que vos escreve resolveu acompanhar a reação nas redes sociais sobre o caso da noite passada. Pois bem, é um show de horrores que ilustra bem o porque essa violência continua acontecendo.
Imagine você ser agredido (ou jogado de um prédio), ter imagens que comprovam o crime e, ainda assim, ser desacreditado? “Ah, mas ela deve ter feito alguma coisa”, “O vídeo é montagem”, “Ele não faria isso, ela tá exagerando”… Parece piada, mas é mais comum do que parece.
Qual é o papel da mídia nisso então? Bom, um estudo da Entidade para a Regulação da Comunicação Social, divulgado nesta segunda-feira (19), revelou que 53% das peças televisivas sobre a violência entre conjugues e ex-conjugues apresentam elementos sensacionalistas.
Pense bem: vocabulário que explora o campo semântico da violência, imagens de cadáveres ou de sangue, fontes ligadas às vítimas ou aos agressores e apresentação de ciúmes, infidelidade ou outros conflitos como as causas de situações de violência doméstica: mais de METADE das peças televisivas contêm pelo menos um destes elementos.

O estudo

Analisou 432 peças sobre violência entre conjugues e ex-conjugues nos telejornais da RTP1, RTP2, SIC e TVI, entre 2013 e 2015. O resultado indicou que falta um esforço para desconstruir a problemática da violência doméstica. É necessário evitar “pormenores sem valor informativo” como ” por exemplo dizer que uma mulher foi assassinada com 19 facadas”.
“Não é muito relevante saber exatamente de quantas facadas ela foi vítima ou saber a localização dos ferimentos ou a forma como o corpo foi encontrado”, explica Túlia Marques, uma das autoras do estudo. “Se dissermos simplesmente que foi um crime de grande violência estamos a dar a mesma dimensão, abstendo-nos deste pormenor”, acrescenta.

Do universo de notícias analisado, 53% revelaram um ou mais elementos de caráter sensacionalista, não havendo diferenças entre o serviço informativo público e o privado. Sendo o homicídio a principal razão para mencionar um caso de violência doméstica.

Por isso, é preciso que você leitor e espectador não seja agente passivo deste tipo de conteúdo (já que falamos de passividade, não o seja também ao saber ou presenciar casos de violência, denuncia para 180 e, se possível, preste socorro à vítima). Se o seu primeiro impulso for duvidar da vítima, ouça a história, observe as evidências e não imponha a sua opinião sobre alguém que sofreu uma agressão. Escute e, mais importante, ajude.
Por T.M.

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