Única medalhista olímpica do Irã cita 'mentiras' e 'injustiças' e abandona o país
Kimia Alizadeh celebra a conquista do bronze no Rio, em 2016 Foto: EFE/EPA/Tatyana Zenkivich

A única atleta feminina do Irã a conquistar uma medalha Olímpica, Kimia Alizadeh, de 21 anos, anunciou no fim de semana que estava desertando em razão da “hipocrisia, mentiras, injustiça e bajulação” e por estar, segundo ela, sendo usada como uma “marionete” pelo regime iraniano.

Alizadeh anunciou sua decisão em um post no Instagram acompanhado de uma foto nos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, em 2016, onde ela conquistou uma medalha de bronze no tae kwon do.

“Eles me levaram para onde quiseram”, disse ela. “O que quer que eles mandavam, eu usava. Cada sentença ordenada eu repetia.”

Seus comentários foram feitos em um momento de alta tensão no país após autoridades iranianas anunciarem no fim de semana que as forças do país derrubaram acidentalmente um avião de passageiros perto de Teerã, matando os 176 a bordo. A admissão de culpa gerou revolta e desencadeou uma série de protestos no país.

Irã e EUA estão envolvidos em uma nova etapa de conflito desde que um drone americano matou o general Qassim Suleimani, um poderoso comandante militar iraniano, em Bagdá. Teerã respondeu atacando com mísseis bases no Iraque que abrigavam tropas americanas.

Ainda que o comunicado de Alizadeh não tenha se referido diretamente ao momento de tensão geopolítica envolvendo o país, ela mencionou “o oprimido povo do Irã” e e as restritivas políticas públicas de conduta e aparência para as mulheres, especialmente a obrigatoriedade do véu.

“Meu espírito conturbado não se encaixa nos seus canais econômicos sujos e nos lobbies políticos”, escreveu ela. “Não tenho outro desejo, exceto tae kwon do, segurança e uma vida feliz e saudável.”

Alizadeh não disse em qual país estava procurando asilo. Mas a agência de notícias semioficial Isna do Irã informou que Alizadeh havia se mudado para a Holanda e observou que ela estava ausente do treinamento havia vários dias antes de divulgar sua declaração.

A agência de notícias iraniana também informou que Alizadeh planejava competir na Olimpíada de Tóquio, mas observou que ela não representaria o Irã.

Fotos compartilhadas nas redes sociais por Jaleh Yekta, uma fotógrafa iraniana radicada em Eindhoven, uma cidade no sul da Holanda, parece mostrar Alizadeh e seu noivo, Hamed Madanchi, participando de um memorial às vítimas do acidente de avião em Teerã. Na foto, Alizadeh fica ao lado de velas, flores e fotos dos mortos no acidente.

Mimoun El Boujjoufi, um treinador de tae kwon do em Eindhoven, disse à emissora holandesa NOS que havia recebido um pedido cerca de um mês atrás de Alizadeh para treinar com ele.

“Ela estava de férias na Europa, mas decidiu não voltar ao Irã com seu parceiro”, disse El Boujjoufi à emissora. “Claro que ela é bem-vinda conosco. Conhecemos suas qualidades. Ela é um trunfo para o tae kwon do na Holanda. ”

Um porta-voz do Ministério da Migração da Holanda disse que o escritório não comentaria pedidos de asilo individuais.

Alizadeh tornou-se uma heroína nacional após sua vitória olímpica aos 18 anos, e muitos no Irã a viam como um símbolo para incentivar as meninas a participar de esportes, apesar das políticas opressivas do país para mulheres.

O presidente da Federação de Tae Kwon Do do Irã, Seyed Mohammad Puladgar, disse em comunicado que sua organização e o Comitê Olímpico “fizeram todos os esforços para apoiar” Alizadeh, e disse que a representação da situação dela pela mídia estrangeira era “simplesmente falsa, injusta e falso”.

‘Sofrimento deles cresce a cada dia’

O anúncio de Alizadeh ocorreu quatro meses depois que Saeid Mollaei, uma das maiores estrelas do judô do Irã, desertou para a Alemanha. Durante o Campeonato Mundial de judô do ano passado, as autoridades iranianas pressionaram Mollaei a desistir ou perder intencionalmente sua luta na semifinal para evitar ser derrotado na final contra um rival israelense.

Atletas iranianos são proibidos de competir contra israelenses.

“Muitos de nossos atletas são forçados a lidar com esses assuntos – e o sofrimento deles cresce a cada dia”, disse Mollaei ao jornal alemão Deutsche Welle em setembro.

“Muitos atletas deixaram seu país e deixaram suas vidas pessoais para trás para perseguir seus sonhos.”

Alizadeh disse que embarcou em um “caminho difícil”, mas “não queria se sentar à mesa da hipocrisia, mentiras, injustiça e bajulação”.

“Essa decisão é ainda mais difícil do que ganhar o ouro olímpico”, escreveu Alizadeh, “mas continuo sendo filha do Irã onde quer que esteja”.

Fonte: Estadão

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