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Séries demais, tempo de menos. É cada vez mais comum, naquela roda de conversa entre amigos, surgir o assunto de uma série ou outra que todo mundo ama, mas você não encontrou tempo para assistir. Por isso, vale a pergunta: existem séries demais sendo produzidas na atualidade?

Em 2017, a Netflix anunciou que faria um investimento de US$ 8 bilhões em conteúdo original em 2018, incluindo séries, filmes, reality shows e programas de variedades. O objetivo era chegar ao fim do ano tendo lançado um total de 700 produções originais, visando públicos de várias idades e gostos. Mas a gigante do streaming não está sozinha na empreitada por altos investimentos para as telinhas.

Após a bilionária aquisição do Amazon Studios dos direitos de adaptação de O Senhor dos Anéis — um projeto rodeado de altas expectativas, mesmo que ainda em fase gestacional —, a Disney anunciou um investimento de US$ 100 milhões em uma temporada da nova série em live-action de Star Wars desenvolvida por Jon Favreau. O número, que estabelece um gasto de US$ 10 milhões para cada um dos dez episódios, se equipara ao orçamento da HBO para as temporadas 6 e 7 de Game of Thrones. Para a oitava, o valor é maior, uma vez que a projeção é que cada episódio custe para o canal a cabo US$ 15 milhões.

Isso depreende que fazer televisão (e o termo aqui, obviamente, também inclui streaming) tem se tornado um negócio mais caro. Consequentemente, espera-se que o retorno financeiro aumente para que o ciclo seja mantido. Mas até onde este “aprimoramento” do conteúdo é realmente pensado para a audiência?

Quando colocamos em pauta o Peak TV, o grande debate gira em torno da lacuna entre produção e consumo — ou seja, a enorme quantidade de séries existentes e a dificuldade para fazer com que todas cheguem ao público, ou que as pessoas sequer saibam que elas existem. Por exemplo, em uma época de “vacas magras”, uma série produzida por J.J. Abrams a partir das obras de Stephen King construiria uma grande expectativa. Mas estamos em 2018, e Castle Rock está passando quase totalmente despercebida.

Esta dificuldade de se chegar à superfície não é necessariamente ruim porque acaba servindo como um incentivo para que as séries sejam de fato melhores, ou busquem métodos criativos para que se sobressaiam à maré de ficções originais. Mas também faz com que as “menores” tenham muito mais dificuldade para se manterem vivas. Não é viável que todas sejam Game of Thrones, alguém precisa ser One Day at a Time.

Este crescimento no número de séries de TV não é um fenômeno que existe puramente por causa da Netflix ou de outros serviços de streaming como Amazon Prime Video ou Hulu. Ainda assim, estes — e os ainda inéditos canais da Disney, Apple e DC — têm jogado na linha de frente do que se entende por produções seriadas, e a tendência é que de fato tenham cada vez mais voz para ditar o mercado entre os próximos anos.

Em 2015, o Instituto de Pesquisa do canal FX identificou que foram lançadas 421 séries ficcionais na televisão norte-americana naquele ano. Destas, 46 foram para streaming. Em 2016, esta razão saltou: de 455 séries, 93 foram para plataformas online. Em 2017, viu-se ainda um novo salto e das 487 produzidas, 117 foram feitas diretamente para veículos como Netflix ou Hulu.

Até o primeiro semestre de 2018, a pesquisa do FX contabiliza que foram lançadas 319 séries fictícias nos Estados Unidos, um acréscimo de 5% em relação ao mesmo período do ano passado. O aumento veio justamente do maior número de produções do streaminge de canais a cabo premium, como HBO e AMC, uma vez que as produções de canais abertos (Fox, NBC, ABC, etc) e canais a cabo básicos (FX, BBC, etc) sofreram uma pequena queda.

Estes dados apenas reforçam a ideia de que o futuro da televisão está na internet. Serviços de streaming têm uma vantagem econômica em relação aos meios tradicionais porque têm gastado mais, uma vez que geram receita maior — a Netflix com um mercado mundial, o Prime Video com o rendimento da Amazon, etc. Um grande exemplo disso são os dois acordos de produção milionários que a Netflix firmou com Shonda Rhimes e Ryan Murphy, dois dos realizadores mais prolíficos da televisão.

Este novo pilar do mercado determina também naturalmente uma mudança das regras básicas. A televisão tradicional e o streaming operam visando objetivos diferentes. Todos querem a atenção do público, mas não das mesmas maneiras. Canais como a Netflix vencem pela quantidade, uma vez que o método é manter o público na plataforma pelo maior tempo possível através de algoritmos e sugestões de conteúdo. Já meios tradicionais precisam provocar o público e fazer com que ele vá buscar determinadas atrações.

É dessa distinção de métodos operacionais que surge a maior questão em torno das produções televisivas atualmente. É de fato necessário haver tantas séries? A previsão é que o número atinja (e talvez até ultrapasse) 500 ao fim de 2018, e os estudiosos da área não enxergam uma diminuição do ritmo ocorrendo tão cedo.

Como pólos opostos, John Landgraf e Ted Sarandos representam os dois lados desta moeda. Presidente do FX e criador do termo Peak TV, Landgraf tem sido a voz mais expoente a tratar deste possível exagero de conteúdo. O executivo destaca que “a profusão de histórias é muito boa quando se quer falar sobre diversidade e inovação”, mas alerta que é graças a esta mesma profusão que é muito difícil fazer televisão “se você estiver tentando surpreender ou deliciar o público.” Para ele, a dificuldade está no fato de que tudo parece “vagamente familiar para um público inundado de opções.”

Falando sobre o que ele chamou de exaustão narrativa, Landgraf fez até uma retratação: “Eu já disse para este grupo [de jornalistas] em outras ocasiões que eu pensava que havia muita televisão. De certa forma, penso que há muitas histórias. Muitas narrativas.”

Do outro lado, falando para executivos de Rádio e TV nos idos de 2015, Sarandos defendeu seu peixe — ou melhor, sua gigante do streaming: “Não tem isso de ‘muita televisão’, a não ser que estivermos gastando mais e assistindo menos. Não é o caso.”

Apesar de a Netflix historicamente não divulgar dados de audiência, é fácil concluir que a expansão do serviço contribuiu para o aumento exponencial do consumo de produções seriadas, seja porque estimula o binge watching (ou seja, as famosas maratonas) ou porque oferece um serviço democrático quando estamos falando de uma audiência global. Há inúmeros casos de séries que jamais chegariam a públicos internacionais de outra forma que não fosse ilegalmente e que ganharam o seu reconhecimento pela Netflix — La Casa de Papel, Good Girls, The Good Place são apenas alguns exemplos; além disso, também existe um ótimo serviço de acervo oferecido pelo catálogo com séries já finalizadas e que, assim, estão a um clique do acesso.

É interessante notar que tanto a tese defendida por Landgraf quanto a defendida por Sarandos beneficiam seus respectivos meios de produção. Embora a defesa de Landgraf seja atualmente a mais aceita pela imprensa especializada norte-americana, é necessário pontuar que não estamos diante de um cenário catastrófico para as produções de TV. Pelo contrário, aliás. Nunca se investiu tanto em conteúdo para as telinhas, e isso abre inúmeras portas que devem ser aproveitadas.

Esta nova tendência de se buscar altos investimentos para produções seriadas em 2018 tem uma relação direta com a “busca pela nova Game of Thrones.” Com a série de sucesso da HBO chegando ao fim, outras emissoras buscam ocupar o lugar da adaptação no coração e na rotina dos fãs. Mas o fato de estes dois mega investimentos estarem ligados diretamente a canais de streaming, tratando-se especificamente da série derivada de O Senhor dos Anéis e da nova ambientada no universo de Star Wars, quer dizer que estes meios estão buscando aumentar o padrão de qualidade e atrair um público diferente, um público tradicional.

A migração do público da TV para a internet é um fenômeno extremamente geracional. YouTube, Netflix, Facebook e Instagram são meios cujo maior objetivo é realmente fazer com que o usuário passe cada vez mais tempo nas plataformas. O grande desafio para as novas produtoras de conteúdo para o streaming é comprovar que existe uma relevância. Por mais que Netflix seja gigante, a empresa ainda não obteve uma grande vitória no Emmy Awards, por exemplo — a primeira série dramática de um canal online a levar o prêmio principal foi The Handmaid’s Tale, do Hulu. Foi apenas neste ano que a empresa superou a HBO em número total de indicações — e, ainda assim, fica atrás no quesito de produções próprias, já que maior parte de suas indicadas são de outros estúdios.

É exatamente por isso que existe esta disputa “não verbalizada” para se “decidir” quem vai ser a maior jogadora do mercado. Enquanto Netflix investe bilhões, a Apple já anunciou dezenas de séries originais sem dar um detalhe sequer de seu canal de streaming. Por sua vez, a Disney tem anunciado um line-up que apela para a nostalgia dos apaixonados pela casa de Mickey Mouse, enquanto a DC aposta em uma abordagem sombria para suas séries originais, com direito até a um “f*ck Batman.”

Por isso, não espere tão cedo por uma queda na quantidade de séries. Você provavelmente vai continuar se sentindo ligeiramente mal por jamais conseguir acompanhar tudo o que está sendo produzido — a cada nova roda de conversa com os amigos, sairá com mais três ou quatro recomendações que provavelmente não conseguirá assistir por falta de tempo. Nesta época, esta é a tendência natural das coisas, não apenas com séries mas também com filmes, livros, músicos, novos artistas. O desafio é conseguir (ou ter coragem de) filtrar o que realmente vale a sua atenção. As opções estão todas aí. Boa sorte tentando escolher.

Fonte: Adoro Cinema

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