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Por que precisamos saber mais sobre a linguagem neutra?

Em busca de uma terapia sem gênero, a psicóloga Sofia Favero nos convida a um encontro com pessoas que buscam uma escuta sensível

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Os debates sobre linguagem neutra permanecem aparecendo nas redes sociais. Grande parte das vezes, de maneira pejorativa, como se os sujeitos que bancassem essa demanda estivessem desligados da realidade.

Sinto como se diversos julgamentos e moralidades fossem acionados a partir do momento que alguém declara não pertencer às categorias “homem” e “mulher” – junto ao aparato linguístico que se conecta a elas: prenomes, formas de tratamento, leituras sociais.

Não raramente, encontro sinais de resistência em comentários ou publicações que buscam tratar a questão como uma questão de menor valor, de pouca importância.

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Convém salientar que a discussão, todavia, não fica restrita ao campo digital, dado que recentemente, ainda em dezembro de 2020, o vereador Carlos Bolsonaro apresentou um Projeto de Lei na Câmara Municipal do Rio de Janeiro para proibir o que tem sido denominado de “gênero neutro”.

O texto do projeto apontava que palavras como “todes” ou “todxs” estavam corrompendo bases sólidas das ciências biológicas, embora tampouco tenhamos algum consenso sobre o termo que desejamos utilizar em relação à linguagem neutra.

Todes, todxs e [email protected] são apenas alguns dos exemplos que temos observado surgir para materializar um desdobramento na comunicação, ainda que tais expressões permaneçam tendo limites.

Alguns apontamentos constantes (e contrários) falam sobre como algumas pessoas com deficiência estariam impedidas de compreender a linguagem neutra, uma vez que os aplicativos de transcrição de tela não seriam capazes de pronunciar palavras com “x” no lugar de uma vogal.

Esse me parece um argumento que está em construção há bastante tempo, desde os primórdios de 2013 e 2014, quando o debate foi sendo estimulado, mas, ao mesmo tempo, é como se ele (o argumento) reconhecesse uma certa imutabilidade algorítmica: os aplicativos não mudam.

Soma-se a essa questão a surpresa que tive ao observar que alguns termos conseguem ser pronunciados pelos leitores de tela – o que não significa, ainda, uma experiência integral, sem interrupções.

O ponto é que quando a “linguagem neutra” surge como tema é como se comumente surgisse alguém para afirmar que haveriam coisas mais importantes para nos ocuparmos.

Mas quem define o que é objeto de nossa preocupação? E por que algo tão basilar como a forma de falarmos sobre nós deve ser encarado como uma preocupação pequena, superficial, fútil? É de fato absurdo que não desejemos mais ter o “masculino” como um sinônimo, um genérico? Um modo único e global de fazer referência a um grupo heterogêneo, múltiplo, singular mesmo que inserido na pluralidade? F

oi pensando nisso que pensei de escrever sobre o meu lugar enquanto uma psicóloga que recebe pessoas com essa demanda: estou em busca de uma terapia sem gênero, podemos fazê-la?

Dentro da psicologia, são muitos os conservadorismos que podem ser invocados a partir desse pedido. Como assim? Essa pessoa está perdendo o contato com a realidade?

Gostaria de romper com o contrato discursivo que nos situa enquanto sujeitos?

Rapidamente emergem diferentes leituras psicopatológicas, como se quem demandasse um não-enquadramento no lugar de homem ou mulher estivesse ou psicotizando ou com algum transtorno de conduta.

Creio que a nós, profissionais de saúde mental, cabe o papel de refletir sobre o que a psicanálise chamou de contratransferência: por que (?) nos causa uma angústia tão íntima e profunda que alguém nos diga: esse sistema sexo/gênero da forma que está dado me soa violento.

Mudar a linguagem é impossível – consigo ouvir colegas de trabalho dizerem. Talvez, então, o primeiro ponto seja reconhecer: o que para nós parece impossível, para outra pessoa pode ser justamente a única possibilidade de restituição subjetiva.

A partir desse reconhecimento, é preciso que a gente consiga ir além do “não consigo” ou “não sei” – pois o terreno que dá sustentação à saúde mental não pode ser hierárquico ou descompromissado, mas, sim, baseado na noção de que há um elemento desconhecido, não catalogado, desprogramado, que deve ser caro a nós.

Algumas abordagens chamariam esse elemento de “outro”, “tu”, mas aqui quero pensar em termos de relação dialógica, pois quando nos dizem que não se enxergam numa gramática normativa, não estão querendo dizer que somos pouco ou que somos falhos, mas que somos “parte”.

É como se me dissessem – “eu não me vejo nessa gramática, podemos, ainda assim, estabelecer um encontro?” Eu e tu? Ou isso que chama de “outro” só pode ser levado em consideração caso a reinvindicação em evidência seja normativa?

A insurgência das pessoas não-binárias precisa nos mobilizar de modo a evitarmos um tom policialesco sobre a linguagem, tendo em vista que essa preocupação deixa de fora a violência das nossas práticas discursivas, muitas vezes despercebidas, invisíveis, corriqueiras.

Por isso, antes de afirmarmos o que “não dá pra fazer com o português”, cabe alguma implicação sobre o que dá pra fazer por quem está, dentro ou fora do consultório, buscando uma escuta sensível.

A psicoterapia é um lugar de contradição, mas também de conforto. Costumamos nos referir a ela como um espaço seguro – embora, devo declarar, incomoda-me um pouco essa noção “fast food” sobre aquilo que fazemos, pois a terapia também consegue ser um campo de entraves, dores e elaborações difíceis (talvez aí resida sua potência).

Como venho tentando lhe dizer, não são poucas as pessoas que chegam à clínica com essa discussão em mente. E é preciso que algo seja produzido a partir da diferença. Se nos mantemos inertes às demandas indisciplinadas, sob a ótica do nosso próprio desamparado (eu não consigo, eu não entendo), talvez seja o momento de inventarmos, portanto, outras psicologias.

Esse não é um texto sobre como estamos em débito, embora estejamos. Tampouco é um tratado sobre aquilo que já deveríamos ter resolvido, pois manter a tensão é uma atitude que também funciona como convite ao debate.

A busca por uma terapia sem gênero (aos apressados que dirão: é impossível existir sem enquadramentos de masculinidade e feminilidade) é uma busca por audições menos ruidosas. Precisei reformular muitas frases, como ao trocar “você tem estado cansado?” por “como tem estado a questão do cansaço pra você?” – nessa persecução por um diálogo menos generificado, apesar de escorregar às vezes. Em momentos assim, falava o final mais baixo, como se quisesse suprimir a última letra: tem estado cansaaaaad…?

E geralmente ríamos daquilo tudo. O que estava em jogo não era o número de acertos, mas o quanto tentávamos afirmar outros destinos à língua que tínhamos.

Pode ser que, assim, a gente consiga, mesmo que de maneira desajeitada, mostrar a quem nos solicita que existir é inventar. Existem coisas que estão prontas, mas também existem aquelas que precisam ser criadas.

Caso o engajamento com a permanência de alguém em protocolos escolares, hospitalares e até mesmo terapêuticos não seja motivo o bastante, pode ser que tenhamos perdido de vista que também cabe a nós o exercício de sustentar a relação. Evidentemente, não quer dizer que essa é uma discussão simples ou simplória, como se, com efeito, déssemos conta de todo e qualquer tipo de atualização.

A questão encontra sentido menos no erro e mais no esforço coletivo que devemos ter em aprimorar algoritmos e consultórios. O trabalho terapêutico não é o de responder às perguntas que nos fazem com recursos esvaziados do mundo, mas de criar outros recursos para conceber novos mundos às vidas que temos.

Por: Sofia Favero

Psicóloga, ativista trans e vice-presidente da Organização e Movimento Sergipano de Transexuais e Travestis

 

 

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