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A cultura do cancelamento: os efeitos, as consequências e a intolerância

Isabel Peralta, criadora de conteúdo digital e acadêmica de psicologia. Dona do Canal Aqui-e-agora, recentemente, publicou um vídeo sobre a Cultura do Cancelamento e deu detalhes dos efeitos e consequências para a sociedade.

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Nas redes sociais o termo “cancelamento“ ganhou forças além da esfera, muito usado pelos jovens para designar uma espécie de boicote a artistas, marcas ou pessoas, que não expressam sua opinião ou comentem algum tipo de injúria ou preconceito ou simplesmente possuem opiniões diferentes da grande massa concordante.

Nos últimos anos, a cultura do cancelamento surgiu com a internet entrando em uma nova fase, na qual a web é mais usada para debater pautas sociais e políticas. E com uma geração de usuários mais engajados e antenado com cada detalhe, certas falas, atitudes, fotos e opiniões emitidas por artistas e políticos, que há alguns anos passariam batidos diante da grande massa, vêm tomando grandes proporções na internet.

Em 2019, a “cultura de cancelamento” foi eleita como o termo do ano pelo Dicionário Macquarie, um dos responsáveis por selecionar as expressões e palavras que mais moldaram o comportamento humano. Nas palavras do Dicionário Macquarie, a cultura do cancelamento é “um termo que captura um aspecto importante do estilo de vida deste ano. Uma atitude tão persuasiva que ganhou seu próprio nome e se tornou, para o bem ou para o mal, uma força poderosa”.

Em 2020, o assunto segue em alta e divide opiniões. Enquanto parte dos usuários acreditam que o linchamento virtual, revestido de boas intenções, pode ser uma ferramenta de mediação moral, especialistas, profissionais e acadêmicos alertam para os sinais por trás da atitude.

Hoje o Portal Tipo Manaus, bateu um papo com a criadora de conteúdo digital e acadêmica de psicologia, Isabel Peralta que explicou sobre os efeitos e as consequências do cancelamento e do poder da internet.

Isabel Peralta, 26 anos, criadora de conteúdo digital e acadêmica de psicologia.
Isabel Peralta, 26 anos, criadora de conteúdo digital e acadêmica de psicologia.

Peralta é dona do Canal aqui-e-agora, que aborda temas de psicologia, questões sociais e espiritualidade, levantando questionamentos e reflexões para a sociedade, em um recente vídeo publicado em seu canal (Cultura do Cancelamento), ela explica que grande parte dos efeitos causados pela cultura do cancelamento não são positivos, “tem tornado as pessoas extremamente críticas em um nível que beira o absurdo, chegando a agressões, ameaças, linchamento (virtual ou não), fim de carreiras e até a perseguições”.

Portal Tipo: Em seu vídeo você exemplifica o peso das palavras ditas por pessoas públicas (famosos, influenciadores) que participaram do bbb, qual lição você tira disso?
Isabel Peralta: A lição que tiro disso é a de que todos nós, em algum nível, temos nossos preconceitos, limitações, falta de conhecimento sobre determinados assuntos, e acima de tudo, somos humanos e passíveis de erros. Existe uma frase no meu vídeo que muitos amigos que já sofreram o tal do “cancelamento” gostaram muito de ouvir, que é “saber diferenciar um erro de um hábito”.

Claro que a proporção do que uma menina branca, rica, famosa e cheia de privilégios diz em rede nacional tem um peso infinitamente maior do que o de pessoas consideradas comuns, porque essas pessoas são realmente influenciadores e o que eles falam pode moldar de forma tanto negativa quanto positiva o comportamento de milhões de pessoas.

Então comentários racistas e machistas (que são fruto de toda uma construção da nossa sociedade) são assuntos sérios que precisam de atenção tanto de quem acompanha o conteúdo quanto de quem passa.

Fico feliz de saber que quase todos que saíram da casa foram capazes de rever seus comentários e aprender com eles.

A cultura do cancelamento é o famoso “não acertou então joga fora” enquanto as coisas não podem ser sempre 8 ou 80, que tal trocar o “cancelamento” por um diálogo? Assim fica tudo mais fácil para quem quer aprender.

A cultura do cancelamento: os efeitos, as consequências e a intolerância. (Foto: Reprodução)
A cultura do cancelamento: os efeitos, as consequências e a intolerância. (Foto: Reprodução)

Portal Tipo: Com a cultura do cancelamento ficou mais difícil de expressar as opiniões pessoais na internet sem ser julgado ou massacrado, destacando que opinião é um direito de qualquer cidadão, você acredita que fica mais difícil de se expor na internet?
Isabel Peralta: Acredito que sim, mas ao mesmo tempo, pessoalmente falando, isso me fez buscar mais conhecimento antes de falar qualquer coisa na internet. Não que eu acredite que todas as pessoas devam pensar da mesma forma, ou pior, devam pensar da forma que eu penso, mas acredito que se todo mundo buscar conhecimento antes de explanar uma opinião sobre algum assunto relevante, teríamos uma sociedade mais antenada de forma geral em vários assuntos. Um exemplo disso é a política no Brasil, onde muito se fala, porém, a maioria das falas são empobrecidas de conhecimento.

Portal Tipo: A cultura do cancelamento interfere em nossa liberdade?
Isabel Peralta: Com certeza! Quem nunca apagou alguma coisa com medo da possível repercussão negativa, não é mesmo? Acredito que precisamos urgentemente aprender a nos comunicar de forma não-violenta, respeitosa e entendendo que cada indivíduo tem seus motivos para pensar de determinada forma. Não tem nada de errado em discordar desde que você busque respeitar o direito do outro não ter construído sua opinião e pensamento da mesma forma que você.

A cultura do cancelamento: os efeitos, as consequências e a intolerância. (Foto: Reprodução)
A cultura do cancelamento: os efeitos, as consequências e a intolerância. (Foto: Reprodução)

Portal Tipo: Saúde mental e a cultura do cancelamento, quais os efeitos e as consequências?
Isabel Peralta: São tantos os efeitos que eu poderia passar horas falando sobre isso (risos). Mas quero abordar isso de uma forma que contemple ambos os lados, tanto o de “quem cancela” quanto o do “cancelado”. Como já dizia Freud, “quanto de você existe naquilo que você odeia?”

Porque existe tanto ódio nas imperfeições, falhas e limitações alheias? Por que buscamos incansavelmente por uma pessoa perfeita para não cancelarmos e suprirmos todas as faltas que as outras pessoas deixaram? Isso é um sofrimento, é uma questão importantíssima entender todo esse “hate” e como está a saúde mental desse indivíduo.

O sofrimento existe dos dois lados, pessoas acostumadas a “bater” normalmente vem de um histórico onde isso é normal, quem “apanha” sofre pelas consequências desse ciclo não-saudável.

A criadora de conteúdo deixa um recado para o público, “saibam diferenciar um erro de um hábito e estejam sempre abertos ao diálogo, até com quem não quer dialogar, faça a sua parte ao tentar ensinar e aprender cada vez mais sobre viver em sociedade no emaranhado que são as relações humanas”.

“Nossa geração não está errada por ser engajada em causas e lutar por respeito e igualdade, o problema é fazer tudo isso sem propagar o respeito e a igualdade que tanto pregam e cobram. Dentro disso caímos no tema de um vídeo que terá em breve no canal sobre Comunicação Não-Violenta, que é a única saída para verdadeiros debates saudáveis e não brigas de ego”.

Leia mais: Coronavírus: pessoas e marcas reinventam-se durante a pandemia no mundo digital

6 COMENTÁRIOS

  1. Obrigado Isabel Peralta pelos compartilhamento de aprendizado.
    Realmente hoje em dia temos mais cancelamentos e menos diálogos.
    O respeito e a dignidade foram corrompidos pela força bruta da necessidade de ser o melhor ou estar entre os Melhores mal caráter da sociedade.

  2. Muito bom. Isabel Peralta é uma ótima criadora de conteúdo digital sem contar que tem um carisma enorme e é uma pessoa muito rica espiritualmente. Eu sou suspeita de falar dela…….

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